Eu, eu mesmo e Seth Godin em NY
Não há números oficiais, mas duvido que eu seja o único brasileiro trabalhando em comunicação digital para quem Seth Godin é leitura diária. Às vezes me incomodo, é verdade, com o estilo guru do óbvio que o caracteriza, especialmente quando ele propõe idéias de dificílima aplicação no chamado mundo real. Mas o fato é que ele construiu o blog pessoal mais lido do mundo em língua inglesa trabalhando em admirável coerência com a filosofia que prega, e que eu resumiria assim: peça permissão; seja grato, mas não tente agradar a todos; recuse certezas de manual; e entregue – no sentido de deliver – sempre e muito.

Nunca tive particular interesse em conhecê-lo pessoalmente, mas uma incrível série de coincidências se encarregou de promover o encontro. Foi no último dia 8 de fevereiro, em Nova York, num dos eventos de lançamento do novo livro de Seth, Linchpin. O pequeno auditório da livraria Borders, localizada no complexo que abriga a sede da Time Warner, ficou menor ainda ao receber a multidinha que enfrentou o frio de dois graus negativos para vê-lo. A variedade do público presente foi mais uma demonstração de que, na Internet, a gente nunca sabe quem está do outro lado: homens, mulheres, crianças e até cachorros, de todas as idades e aparências, muitos em pé (com exceção dos cachorros) e achando o maior barato, veja você.
Seth chegou pontualmente às 19h, acompanhado do outro convidado da noite, Steven Pressfield, autor do também recém-lançado The War of Art. Se você já assistiu a vídeos das palestras de Seth no TED, saiba que ele é em pessoa exatamente o que aparenta ser na tela: magérrimo, modos contidos, de fala mansa e extremamente articulada. Mas o melhor adjetivo que me ocorre para descrevê-lo é preparado. Goste-se ou não dele ou de suas idéias, fica evidente que se está diante de um homem que carrega amplo conhecimento teórico da sua área de atuação, e que expõe seu pensamento de maneira clara, direta e rica em imagens concretas. De quantos auto-proclamados gurus e outros habitués do surrado circuito de palestras se pode dizer o mesmo? Muitos poucos, certamente.

A discussão girou em torno do assunto central tanto no livro de Seth quanto no de Steven. Como vencer a resistência interna que nos empurra para a mediocridade, fazer um trabalho que realmente importa e deixar de ser apenas mais uma engrenagem na máquina de moer carne do capitalismo, tornando-se um profissional indispensável? Dito assim parece algo vago e abstrato, mas acredite: até que rendeu – mais do que eu esperava, pelo menos.
Nos primeiros 40 minutos, descontraído bate-bola entre os autores. Seth nos conta que Linchpin não trata dos insights e estratégias de comunicação e marketing que o consagraram. Seu novo objeto de interesse é o profissional indispensável, o artista, o criador de valor, a figura que faz a diferença e sem a qual nenhuma organização sobrevive. Segundo ele, “pessoas que seguem regras e lêem manuais para fazer seu trabalho são, por definição, substituíveis. São elas as primeiras a ir para a rua nos momentos de aperto. As pessoas de que uma empresa não pode prescindir são aquelas que ousam lançar novas idéias, estabelecer novas conexões e criar ordem a partir do caos.” Tudo muito bonito, mas experimente convencer o seu chefe disso. Anyway…
Seth concluiu o raciocínio notando que “a única coisa que pessoas de sucesso têm em comum é… serem pessoas de sucesso.” Um viva para o guru do óbvio, diriam os críticos. Na verdade, o que ele quer dizer é que essas pessoas podem vir de famílias ricas ou pobres; podem ser filhos de sangue ou adotivos (como Steve Jobs e Jeff Bezos, citados nominalmente); podem ser nativos ou imigrantes; podem ter se graduado em Harvard, abandonado Harvard no primeiro ano ou nunca sequer ter passado perto de Harvard ou de qualquer banco de universidade. Nada disso importa. Para Seth, realizar um trabalho relevante é acima de tudo uma decisão pessoal, acessível a qualquer pessoa. O que posso dizer é que estou mais ou menos na metade de Linchpin e ele está quase me convencendo disso.
Há pouco eu falava em bate-bola entre os autores, mas talvez tenha exagerado. Seth tentava a todo momento passar a palavra ao discreto Steven, a quem tratou com grande admiração e deferência. Acontece que o próprio Steven parecia mais interessado em ouvir Seth do que em promover seu livro. Quem explica? Não eu, não aqui.
Ao final da exposição, abertura para 20 minutos de interação dos autores com o público. Eu havia preparado duas ou três perguntas sobre o futuro do profissional e das agências de RP em uma sociedade conectada, a relevância dos canais digitais para os objetivos de negócio das corporações e outras amenidades do gênero, mas elas me pareceram altamente off topic no contexto da conversa que rolava ali. Não querendo perder a viagem, pedi o microfone e me contentei em perguntar a ambos quais eram seus maiores medos (relacionados ao trabalho, por supuesto), e como lidavam com eles.
As respostas não me decepcionaram. Ouvi de Steven que seu maior medo é o de ter de lidar com a dor de não fazer o trabalho que ele se propôs a fazer, ou, em outras palavras, o de deixar de se comportar como um profissional. Um medinho mais do que razoável. Particularmente vindo de um escritor, cuja produção só depende de seus próprios meios e está sujeita a estados de humor desconhecidos da turma que bate cartão e recebe décimo terceiro. Como o próprio Steven lembrou, muita gente que vive de trabalhos ditos “criativos” sofre de alguma variação do chamado writer’s block, ou “bloqueio de escritor”, mas ninguém sofre de plumber’s block, ou “bloqueio de encanador”. É a vida.
De Seth, que sempre tem uma resposta (quase sempre rápida e convincente) para tudo, ouvi algo com que muitos de nós podemos nos identificar. Lembrando como amargou muitos anos no limbo, em trabalhos obscuros, sem que ninguém desse a mínima para o que ele tinha a dizer, contou que que sua maior insegurança é saber se estará à altura do reconhecimento de que hoje desfruta. Falando sobre o próprio evento em que estávamos, disse o seguinte: “mais de 100 pessoas estão aqui hoje para me ouvir. Muitas delas leram meus livros. São pessoas que prestigiam meu trabalho com sua atenção e seu dinheiro, e elas esperam alguma coisa de mim, desta oportunidade. Então o meu maior medo é saber, todos os dias, se eu farei justiça às oportunidades que me são dadas.”
Não tenho por que duvidar da sinceridade dele ao dizer isso. Mas observando in loco a postura de Seth, a imagem que ela projeta e as reações do público a frases de efeito como essa, pude ter uma idéia mais clara das razões que o tornaram tão popular. Tendo lido centenas de seus posts e alguns de seus livros, minha impressão é a de que Seth deliberadamente posiciona seu discurso a meio caminho entre o que queremos acreditar e o que efetivamente acreditamos.
A diferença é sutil, mas significativa. No fundo, a realidade do ambiente de trabalho corporativo típico é tão intolerável que nós simplesmente queremos acreditar que uma outra seja possível. As idéias de Seth nos dão a impressão de que essa outra realidade não só é possível como está ao nosso alcance, todos os dias. Talvez esteja, mas haja coragem, competência e paciência para criá-la. Na prática, isso é para poucos, muito poucos, e o próprio Seth parece saber disso. Perguntado sobre quantas pessoas seriam tocadas pelo seu livro a ponto de tomar a decisão de mudar algo em suas carreiras, Seth respondeu na lata: “dez pessoas, e já me darei por satisfeito.”

E ele tem toda a razão. Para cada pessoa decidida a fazer a diferença há milhares, talvez milhões de outras que se contentarão em ler sobre fazer a diferença. Como alguém já disse um dia, a procrastinação é o oitavo pecado capital, e é particularmente nociva nestes tempos de hiperconectividade e overdose de informação. Saravá.
